O Complexo Hospitalar de Viçosa compartilha, com satisfação, o resultado do Concurso de Poesia realizado em homenagem ao Mês da Mulher, uma iniciativa que deu voz às vivências, percepções e sensibilidades dos colaboradores, com o objetivo de valorizar e reconhecer a presença e a importância das mulheres no ambiente hospitalar.
A iniciativa contou com a participação de colaboradores das duas unidades, que submeteram produções autorais alinhadas à temática proposta. Os textos abordam, sob diferentes perspectivas, o papel das mulheres no cuidado, na assistência e na rotina institucional.
O processo de avaliação foi conduzido de forma técnica e anônima, com base em critérios previamente definidos, como aderência ao tema, criatividade, emoção, qualidade da escrita e valorização da proposta. A partir dessa análise, foram selecionados os destaques de cada unidade.
O Complexo Hospitalar de Viçosa reconhece e agradece a participação de todos os colaboradores envolvidos, cujas produções contribuíram para enriquecer a iniciativa e ampliar a valorização da temática por meio de diferentes formas de expressão.
Os vencedores foram definidos conforme o desempenho nos critérios estabelecidos, com produções que se destacaram pela consistência, sensibilidade e abordagem do tema.
Para celebrar e dar visibilidade às produções que se destacaram, o Complexo apresenta, a seguir, os vencedores do Concurso de Poesia, juntamente com suas respectivas obras:
Autora: Thamara Alves
No intervalo curto entre um batimento e outro, aprendi a perceber coisas que ninguém me ensinou.
Não está nos livros, nem nos protocolos —
está nas mãos que hesitam, mas não recuam,
no silêncio que fica quando o paciente cala,
e na escolha de ficar, mesmo quando o corpo pede pausa.
Ser mulher na saúde, pra mim,
sempre foi caminhar em linhas que quase ninguém vê.
Entre fazer tudo certo
e fazer o que o outro precisa naquele instante. Entre o relógio correndo
e alguém que só precisava ser escutado com calma.
Com o tempo, entendi que existe um saber
que não vem de aula nenhuma.
É um tipo de atenção que chega antes da palavra,
um pressentimento quase sutil
que, muitas vezes, acerta antes mesmo do exame.
Nem sempre isso é reconhecido.
Na verdade, quase nunca é.
Já precisei explicar mais de uma vez
que o cuidado também é conhecimento,
que escutar também exige preparo,
que sentir não é falta de técnica.
Carrego comigo histórias que não são minhas, mas que, de algum jeito, passaram a fazer parte de quem eu sou.
Nomes, rostos, despedidas —
e aquela respiração funda no meio do plantão, quando tudo parece urgente demais.
Estar aqui também é isso:
ocupar espaços que nem sempre foram pensados pra nós,
falar quando antes esperavam silêncio,
e aprender a não diminuir o que a gente faz
só pra caber no que esperam da gente.
Hoje eu sei:
há força no cuidado que parece simples,
há rigor em quem observa de verdade,
e há transformação em quem escolhe escutar.
E se tem algo que eu ainda aprendo todos os dias
é que não preciso ser menor pra pertencer.
Posso abrir espaço,
como quem insiste em deixar entrar luz
onde antes só existia parede.
Inquebrável
Autora: Thais Fernanda
Antes do sol ousar nascer,
ela já venceu a primeira batalha do dia.
Em silêncio.
Sem aplausos.
Sem plateia.
Ela levanta…
mesmo quando o cansaço grita seu nome,
mesmo quando a vida pesa nos ombros
como se o mundo inteiro tivesse escolhido morar ali.
E ainda assim — ela vai.
Ela é mãe.
Mas não apenas isso.
Ela é o colo que cura,
a voz que acalma tempestades,
o abraço que reconstrói pedaços invisíveis de quem ama.
Ela é casa —
mesmo quando ninguém pergunta
se ela também precisa descansar dentro de alguém.
Ela é rotina e milagre ao mesmo tempo.
É quem transforma pouco em suficiente,
dor em aprendizado,
e dias difíceis em motivos para continuar.
Lá fora, ela enfrenta o mundo.
Lá dentro, ela sustenta universos.
Trabalha, cuida, resolve, recomeça.
Cai… e levanta antes mesmo de alguém perceber que doeu.
Porque dentro dela existe algo que não se explica —
só se sente:
uma força que não aceita desistir.
E quando a noite chega,
quando tudo silencia…
é ali, no escuro, que ela se permite ser humana.
Chora.
Respira fundo.
Se recolhe em si mesma…
Mas não quebra.
Porque ela sabe —
mesmo que ninguém diga —
que é essencial, insubstituível, infinita.
Ela ama com tudo o que tem…
e até com o que já não tem mais.
Ama nos detalhes,
nos sacrifícios invisíveis,
nas renúncias que ninguém vê,
mas que sustentam tudo.
E ainda assim,
no meio do caos, da pressa, da sobrecarga —
ela floresce.
Ela floresce onde disseram que não havia chão.
Porque ela não é só mulher.
Não é só mãe.
Não é só quem cuida.
Ela é resistência em estado puro.
É coragem que respira.
É amor que persiste quando tudo falha.
Ela é feita de quedas…
mas, sobretudo, de recomeços.
E o mundo pode até não parar para reconhecê-la —
mas gira, todos os dias,
porque ela nunca para.
Ela não quebra.
Ela se refaz.
Ela é…
inquebrável.
Em linguagens poéticas
Autora: Núbia Paiva
Entre corredores brancos e silêncios que pesam,
há passos firmes que quase ninguém vê.
São elas as que limpam o chão onde a angústia cai,
as que acolhem a dor invisível,
as que vigiam monitores como quem guarda vidas,
as que decidem, com ciência e coragem,
quando insistir,
quando acolher,
quando partir...
Há cansaços que não são ditos,
há renúncias que não são vistas,
há mulheres que seguem,
ainda assim,
com a firmeza de quem sustenta o mundo sem anúncio.
Porque ali, na beira daquele leito...
tudo é Complexo.
A dor é complexa.
O tempo é Complexo.
A vida
por um fio
é complexa.
E ainda assim,
elas permanecem.
A da higienização que purifica o ambiente
e limpa também o medo,
em linguagens poéticas, seriam as guardiãs.
A radiologista que traduz imagens em destino,
em linguagens poéticas, seriam as artistas.
A enfermeira que reconhece a dor antes do pedido,
como quem escuta o que ainda não foi dito.
Em linguagens poéticas, seriam as videntes.
A médica que decide sob o peso do impossível,
sem jamais abandonar a esperança.
Em linguagens poéticas, seriam as sacerdotisas.
E há também as que sustentam o invisível,
no administrativo, na organização do caos,
onde o cuidado começa
antes mesmo de tocar o paciente.
Em linguagens poéticas, seriam arquitetas da ordem.
Porque ser mulher ali e aqui
é ser, todos os dias,
mais do que se pede,
mais do que se vê,
mais do que se reconhece.
Mas
nunca
menos
do que se é.
É ser complexa,
inteira e fragmentada,
forte e exausta,
razão que decide
e coração que não desiste.
E quando o plantão termina
e o corpo já não responde,
há um instante
silencioso,
quase sagrado,
em que a mulher entende:
não é só trabalho.
É entrega que não se mede.
É presença que não se substitui.
É humanidade em estado bruto.
É presença que sustenta a cura.
E então,
é ali,
no limite entre o cansaço e o sentido,
que ela se encontra.
Não no reconhecimento,
não no aplauso,
não no que dizem dela.
Mas no que ela faz e fez.
E ao perceber que, naquele dia,
alguém respirou melhor,
alguém sofreu menos,
alguém se alimentou,
alguém permaneceu,
ela também se salva.
Porque em um mundo Complexo,
onde a vida insiste em escapar,
é nas mãos de uma mulher
que, tantas vezes,
a VIDA decide ficar.
Ela volta amanhã
Autora: Marlene Gonzaga
Ela acorda antes do sol, na responsa do dia,
sem romantizar a luta, nem chamar de poesia,
café ralo, olhar fundo, pensamento distante,
é mais um dia pesado, mas ela segue adiante.
No busão lotado, silêncio virando escudo,
cada rosto um universo, cada mente um mundo,
vai juntando coragem no balanço da viagem,
porque sabe: o plantão cobra mais que a passagem.
No trabalho, ela escuta o que falta dizer,
lê na dor escondida o que tentam conter,
não foi curso que ensinou esse olhar tão certeiro,
foi a vida cobrando desde cedo o roteiro.
Tem história que ela leva e não dá pra explicar,
não cabe em relatório, nem dá pra arquivar,
fica presa na mente, atravessa o dormir,
é um peso invisível difícil de dividir.
E ainda assim, no outro dia, ela volta pra linha de frente
não por gosto da dor, nem por achar que é dom,
mas porque desistir nunca foi opção real,
pra quem sempre equilibra o mundo no varal.
Tem dia que ela cansa, que a força vacila,
que o corpo pede pausa, que a mente oscila,
mas respira fundo e reorganiza o chão,
porque parar, pra ela, nunca foi solução.
Ser mulher preta é viver no limite do olhar,
onde muitos não veem, ela insiste em ficar,
não é sobre ser forte o tempo todo, sem falha,
é seguir existindo mesmo quando tudo atrapalha.
E no fim dessa rotina que ninguém aplaudiu,
tem cuidado e presença em tudo que construiu,
porque enquanto o mundo gira sem perceber quem mantém,
é ela que sustenta… e ainda volta amanhã também.
Autora: Irene Costa
Mulher
Ela não pede licença, ela chega.
Entre plantões longos e silêncio pesados, seus passos escrevem histórias que raramente são lindas, mais profundamente sentidas.
Ela quem segura as mãos trêmulas, que traduz o medo em calma, quem enxerga além dos exames e cuida também da alma.
No jaleco, não cabe só técnica, cabe sonhos, cansaços e resistências.
Cabem lágrimas escondidas no intervalo e uma força que desafia a própria existência.
Mais antes de tudo ela é mulher.
É quem rompe padrões impostos, quem ocupa espaços negados, quem transforma dor em um caminho e constrói futuros antes inimaginados.
Na sociedade que ainda aprende a escutar sua voz, não se abaixa, ela ecoa, questiona, resiste.
E mesmo quando o mundo pesa, ela floresce.
Porque ser mulher na saúde é mais que profissão, é revolução diária feita com mãos que curam e um coração que nunca desisti.
Forças que Transformam: o poder e o Valor da Mulher na Saúde
Autor: Bruno Viana
No compasso firme de mãos que acolhem,
há vidas inteiras pulsando em cada gesto,
um toque que acalma, um olhar que entende,
um silêncio que diz: “eu estou por perto.”
Entre corredores longos e dias exaustos,
onde o tempo corre e o cansaço insiste,
há mulheres que não se apagam —
elas brilham… mesmo quando ninguém as vê.
Carregam no peito histórias não ditas,
guardam lágrimas que não podem cair,
mas seguem fortes, inteiras, humanas,
porque cuidar também é resistir.
Março não cabe em um calendário,
ele vive em cada voz que se levanta,
em cada história que rompe o silêncio,
em cada alma que insiste e não se espanta.
Na saúde, onde a dor tem nome e rosto,
onde a vida oscila entre o medo e a esperança,
é a mulher quem estende a mão com firmeza
e devolve ao outro a chance de confiança.
Ela é ciência, é técnica, é sensibilidade,
é razão que pensa e coração que sente,
é presença que humaniza o cuidado,
é força que nunca se ausenta, mesmo ausente.
É quem transforma rotina em propósito,
cansaço em coragem, dor em empatia,
é quem mesmo em meio ao caos e à pressão
ainda encontra espaço… para a poesia.
Que cada verso seja abraço apertado,
daqueles que aquecem sem precisar falar,
que cada escuta seja refúgio seguro,
onde toda mulher possa se encontrar.
Celebrar é olhar nos olhos e reconhecer,
é dar nome, espaço e pertencimento,
é garantir que nenhuma voz se perca,
e que toda existência tenha acolhimento.
Porque onde há uma mulher que cuida,
há também uma história que transforma,
e no encontro entre força e sensibilidade,
nasce um mundo mais justo… e mais humano.
